Por Rafael Simões
O cristianismo tem sofrido com transformações ao longo dos anos que se afastam das Escrituras. Uma delas, e uma bem perigosa, é a maneira de enfrentar Satanás e seus demônios. E, neste quesito, Jesus mais uma vez fornece um exemplo que será ecoado pelo Novo Testamento. Em seu embate com o inimigo, não é possível ler sobre Jesus conversando, brincando, negociando, muito menos entrevistando o mesmo. Ele nem sequer responde suas perguntas, mas simplesmente refuta com a Palavra de Deus.
Neste caso, Tiago 4.7 pode ser considerado uma aplicação da tentação. De fato, o irmão de Jesus é bem claro ao exortar o cristão a resistir ao Diabo. Mesmo enfatizando, em 1.13, que o pecado é gerado pela cobiça interna do homem, ele não exclui a atuação diabólica, cujo propósito é separar o homem de Deus. É a essa separação que Tiago conclama seus leitores a resistirem. Tiago está demonstrando que, embora o impulso para pecar é interno, vem de dentro da pessoa, ceder a esse impulso é entregar-se ao diabo. Ao se lembrar, porém, da tentação de Jesus, o cristão resiste ao Diabo, sendo que o mesmo fará o que fez na presença de Jesus, fugirá, como promete Tiago.
A ordem dos imperativos ὑποτάγητε e ἀντίστητε (sujeitar e resistir, respectivamente) é importante, pois a melhor maneira de resistir ao Diabo é, antes, submeter-se a Deus. Todo cristão que submete sua vida a Deus, por consequência, resiste ao Diabo.
O cristão nunca é convocado ao confronto com o inimigo, mas a fugir dele. O cristão não vence a tentação enfrentando Satanás, mas resistindo-o. Na verdade, a atitude de humildade em reconhecer sua pequenez e dependência de Deus é a melhor maneira de encarar as lutas contra as tentações do Diabo. A arrogância e a soberba são o princípio da derrota, quando o cristão pensa ter força suficiente para enfrentar de igual para igual o inimigo, ignorando os próprios princípios da Palavra de Deus.
Concordando com Bonhoeffer (Tentação, 1995, p. 64), a tentação vence se o cristão for levado à soberba espiritual, o que ele chama de securitas, ou à completa autocomiseração, chamada por ele de desperatio. Para ele, durante a tentação, o vencedor é aquele que, ao invés de tentar comprovar suas forças, ora a Deus: não nos deixes cair em tentação.
Aliás, a oração ensinada por Jesus, em Mateus 6.9-13, está relacionada com a tentação de Jesus, especialmente pelo uso da palavra πειρασμός (tentação). A expressão “livra-nos do mal” faz o intercâmbio entre os eventos do capítulo 4 e a oração do capítulo 6 de Mateus. Vencer a tentação é orar como o Mestre ensinou, clamando a Deus μὴ εἰσενέγκῃς ἡμᾶς εἰς πειρασμόν (não deixe-nos cair em tentação) ao mesmo tempo que roga ῥῦσαι ἡμᾶς ἀπὸ τοῦ πονηροῦ (livra-nos de mal), reconhecendo que o δύναμις (poder, no versículo 13) descrito na oração não provém dele próprio, senão somente de Deus.
Então, não ceda às transformações perturbadoras que o cristianismo tem passado. Antes, siga o bom e antigo exemplo de Jesus, que ensinou em sua oração e exemplificou em sua tentação. Parece que seu irmão, Tiago, aprendeu bem a lição!